O efeito BTS: quando a cultura coreana movimenta a economia brasileira

 


Por Yoo Na Kim, escritora e jornalista

Quando milhares de brasileiros se organizam para assistir a um grupo que canta predominantemente em coreano, estamos diante de uma transformação cultural que merece atenção. Há música, identificação e afeto nessa escolha. Há também passagens compradas, hotéis reservados, restaurantes procurados e negócios que encontram novos públicos. A passagem do BTS por São Paulo mostra como a cultura pode aproximar países e gerar oportunidades econômicas.

Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Segundo a São Paulo Turismo, os três shows previstos para os dias 28, 30 e 31 de outubro, no MorumBIS, podem movimentar mais de R$ 330 milhões, considerando a receita com ingressos e os gastos dos visitantes. A projeção inclui quase R$ 260 milhões em bilheteria e aproximadamente R$ 75 milhões em despesas de turistas. São estimativas anteriores às apresentações, mas já indicam a dimensão econômica do evento.

A expectativa é de mais de 50 mil turistas, com gasto médio estimado em R$ 1.500 por pessoa. Esse dinheiro deve circular por hospedagem, alimentação, transporte e comércio. Para compreender o alcance de uma turnê como essa, precisamos olhar também para o restaurante que recebe visitantes, a cafeteria que prepara uma programação temática e os profissionais envolvidos no atendimento ao público.

É nesse encontro entre grandes eventos e pequenos negócios que vejo uma das oportunidades mais interessantes. O fã chega para assistir ao BTS e pode aproveitar a viagem para experimentar um prato coreano, conhecer uma loja ou visitar um espaço cultural. Um interesse que começou na música pode se transformar em uma relação mais ampla com o país e com as pessoas que representam sua cultura no Brasil.

Esse público já demonstra uma curiosidade que ultrapassa os palcos. Uma pesquisa da Serasa, realizada em parceria com o Instituto Opinion Box e com apoio de divulgação do Centro Cultural Coreano no Brasil, identificou que 76% dos entrevistados têm interesse ou curiosidade pelo universo coreano. O levantamento ouviu 1.453 pessoas pela internet, em todo o Brasil, entre 8 e 20 de julho de 2026.  Outros dados apontam que 47% dos entrevistados gastam até R$ 250 por mês com produtos e experiências relacionados à Coreia do Sul e 49% afirmam já ter ultrapassado o valor que pretendiam gastar É um sinal expressivo de como essa cultura passou a fazer parte do repertório brasileiro.

A mudança também aparece nos hábitos. Segundo a Serasa, 47% das pessoas que começaram a acompanhar a cultura coreana passaram a experimentar novos alimentos, enquanto 44% passaram a consumir mais produtos relacionados à Coreia. Esses dados ajudam a entender por que entretenimento, gastronomia e comércio se aproximam tanto nesse movimento. A descoberta de uma série ou de uma música pode despertar a vontade de viver uma experiência fora da tela.

A chamada Hallyu, ou onda coreana, encontra no Brasil um público que participa ativamente dessa circulação cultural. Os fãs compartilham conteúdos, aprendem coreografias, organizam encontros e ajudam outras pessoas a conhecer artistas e produções. Na minha avaliação, essa participação é decisiva: o público cria espaços de convivência e dá continuidade ao interesse entre um lançamento e outro.

Também precisamos reconhecer o papel da comunidade coreana nessa aproximação. Bairros como o Bom Retiro oferecem a possibilidade de transformar a curiosidade digital em contato com a gastronomia, o comércio e as histórias de quem construiu sua vida no Brasil. Valorizar esses espaços significa reconhecer que, por trás de uma tendência de consumo, existem famílias, empreendedores e trajetórias de imigração.

Para quem empreende, a oportunidade exige conhecimento e respeito. Entender esse público envolve conhecer suas referências, oferecer produtos de qualidade e construir experiências que tenham sentido. Uma ação ligada ao BTS pode atrair atenção durante alguns dias; um atendimento cuidadoso e uma experiência cultural bem apresentada podem estimular o retorno.

Há ainda uma reflexão para o Brasil. A força internacional da cultura coreana convida a pensar no potencial econômico da nossa própria produção cultural. Música, audiovisual, gastronomia e design podem abrir mercados, estimular viagens e fortalecer a imagem de um país. Para isso, precisam ser tratados com planejamento, formação profissional e continuidade.

O BTS coloca essa discussão diante de nós com estádios lotados e uma movimentação financeira expressiva. O desafio é fazer com que a energia desses encontros deixe oportunidades duradouras para os negócios locais, para os profissionais da cultura e para ampliar o intercâmbio entre brasileiros e coreanos.

Sobre Yoo Na Kim

Yoona Kim é jornalista, escritora e uma das principais vozes de divulgação da cultura coreana no Brasil. Coreana radicada no país, dedica-se há mais de duas décadas à aproximação cultural entre Brasil e Coreia do Sul, atuando na difusão da história, dos costumes e das manifestações culturais coreanas.

Autora de livros e documentários sobre a cultura e a presença coreana no Brasil, acompanha de perto a expansão da Hallyu — a onda cultural sul-coreana — desde muito antes de o K-pop, os doramas, a gastronomia e a K-beauty alcançarem a atual popularidade entre os brasileiros.

Instagram: @yoonakim.info

Site oficial: yoonakim.com.br

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