Fundação Maria Luisa e Oscar Americano apresenta coleção inédita de arte africana
“África - Ancestralidade e Sincretismos” reúne obras de diferentes regiões do continente e explora como as tradições africanas influenciaram a arte, a religiosidade e a formação da identidade cultural brasileira A Fundação Maria Luisa e Oscar Americano inaugura no próximo sábado, dia 24 de outubro, a partir das 11h, a exposição África - Ancestralidade e Sincretismos. Com curadoria de Renato Araújo e Rafael Schunk a mostra reúne, ao total, 94 peças, entre máscaras, esculturas, bustos e objetos associados à religiosidade e às tradições ancestrais de diferentes povos e regiões do continente africano. O destaque é a coleção de arte africana de Marco Antônio de Biaggi, que ganha destaque na mostra com 70 peças; formada ao longo de décadas e apresentada ao público pela primeira vez. O percurso expositivo também inclui obras das coleções Ivani e Jorge Yunes e César De La Croix, Paris. A exposição parte de dois eixos curatoriais complementares: 1. a diversidade, expressa na variedade de povos, regiões e manifestações culturais representados nas obras, e 2. a unidade, que se revela nas conexões entre essas tradições e na formação cultural do Brasil e das Américas. Nesse contexto, o sincretismo surge como resultado do encontro entre matrizes africanas, indígenas e europeias, em um processo que aproximou diferentes culturas sem apagar suas particularidades.
As raízes africanas da cultura brasileira As obras evidenciam a diversidade de tradições artísticas, conhecimentos e práticas religiosas de diferentes povos africanos que atravessaram o Atlântico e foram transmitidos entre gerações ao longo das últimas décadas, deixando marcas enraizadas na sociedade brasileira. Entre os destaques estão os povos Bantu, especialmente os Bakongo, originários de regiões do Congo e de Angola, cujas contribuições abrangem conhecimentos de metalurgia e agricultura, além de manifestações religiosas e culturais presentes em expressões como as congadas.
A mostra também aborda a influência dos Iorubás, da África Ocidental, cujas tradições estão presentes no candomblé, na música, nos saberes medicinais e nas artes afro-brasileiras. Outros povos representados, como Ashanti, Maconde, Luba, Hemba, Baga, Bamana, Dogon e Senufo, ampliam o panorama da diversidade cultural do continente. “Buscamos reunir obras de diferentes localidades para apresentar parte da riqueza cultural da África. Ao mesmo tempo, quando esses objetos são colocados em diálogo, podemos perceber como essa diversidade encontrou, no Brasil e nas Américas, pontos de contato que contribuíram para a formação de uma cultura marcada pelo sincretismo”, explica Renato Araújo, curador e pesquisador da Associação Museu Afro Brasil desde 2009.
A escolha das obras a serem expostas também contempla a diversidade de materiais, técnicas e funções dos objetos, que incluem peças em madeira, bronze e fibras naturais, máscaras, esculturas devocionais e objetos ritualísticos. “A seleção do conjunto de obras permite explorar tanto a riqueza formal dessas produções quanto suas relações com a história dos povos africanos e com a diáspora que contribuiu para a formação da sociedade brasileira”, destaca Rafael Schunk, curador e mestre em artes visuais.
Sincretismo: adaptação e resistência cultural A mostra investiga, também, o sincretismo afro-brasileiro como um processo de transformação e resistência diante das restrições impostas às práticas religiosas de matriz africana. Em um contexto histórico marcado pela escravização e pela perseguição a essas manifestações de fé, diferentes tradições encontraram caminhos para preservar vínculos ancestrais e estabelecer novas relações simbólicas.
Para Renato Araújo, o sincretismo revela a capacidade de adaptação das tradições africanas diante das tentativas de impedir sua continuidade. “A resistência diante da opressão cria o sincretismo: duas tradições encontram um ponto em comum. Quando o culto a determinadas divindades africanas era proibido, estabeleceram-se correspondências com santos católicos que apresentavam características semelhantes. Dessa forma, o que era uma restrição também se tornou uma estratégia de preservação cultural e de manutenção dos vínculos com a ancestralidade”, explica.
Esse cruzamento de referências pode ser observado em diferentes objetos presentes na exposição, como cruzes etíopes, balangandãs com pingentes de significado religioso e esculturas de santos. Mais do que uma simples combinação de crenças, essas expressões evidenciam a capacidade de reinvenção das tradições africanas e sua permanência na formação religiosa e cultural brasileira.
A presença da estética africana na arte e na cultura Outro aspecto abordado pela mostra é a presença das formas e linguagens visuais africanas na história da arte. A exploração de linhas, volumes e soluções formais, assim como a dimensão simbólica dos objetos, atravessou fronteiras e influenciou diferentes movimentos artísticos, especialmente a arte moderna europeia.
No contexto brasileiro, essas obras também permitem reconhecer uma herança que integra a própria identidade do país. “Esses objetos têm uma dimensão histórica, identitária e, sobretudo, íntima para nós. Os africanos não são ‘outros’ na formação brasileira: suas culturas fazem parte de quem somos.”, afirma Renato Araújo. Ao preservar os contextos históricos, sociais e espirituais dos objetos, a exposição convida o público a ir além de sua apreciação estética e a reconhecer as obras como expressões de saberes, crenças e visões de mundo transmitidos entre gerações.
Ancestralidade e origens da humanidade A relação entre passado e presente atravessa toda a exposição, que propõe uma reflexão sobre a presença das culturas africanas na identidade brasileira e sobre a ancestralidade como experiência compartilhada pela humanidade.
“A principal reflexão que esperamos que os visitantes façam ao olhar cada obra da exposição é uma pergunta a si próprio: há cerca de 250 mil a 300 mil anos não existiam seres humanos fora da África. Foi desse continente que vieram os ancestrais de todos os mais de 8 bilhões de habitantes do planeta, desde as crianças que estão nascendo agora nos hospitais, todos os descendentes futuros deles remete historicamente ao mesmo lugar: a África. Sendo assim, quanto esse misterioso continente teria a ver conosco e na verdade ainda nem sabemos?", conclui o pesquisador e curador Renato Araújo. Sobre os curadores Rafael Schunk é arquiteto, mestre em artes visuais pela UNESP (Universidade Estadual Paulista), e pesquisador de arte sacra luso-brasileira. Participou de projetos e publicações no Museu de Arte Sacra de São Paulo, Santana de Parnaíba, Casa de Portugal, Palácio dos Bandeirantes, Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, Museu de Congonhas, Fundação Maria Luisa e Oscar Americano e Museu de Arte Sacra e Diversidade Religiosa (MASDR) de Olimpia, no interior de São Paulo. Renato Araújo da Silva é pesquisador da Associação Museu Afro Brasil desde 2009, tendo também pertencido à equipe de educadores da instituição por quatro anos a partir de 2005. Tem experiência nos campos de arte africana e filosofia. Com ênfase nas joias africanas e na filosofia antiga, ele atua principalmente com os seguintes temas: joias africanas, artes africanas, arte e joalheria afro-brasileiras, dinheiro primitivo, acervo de joias do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), antropologia econômica, arqueologia, acervos de museus e catalogação, bem como desenvolve pesquisas sobre filosofia pré-socrática, Demócrito e atomismo antigo. SERVIÇO Exposição África - Ancestralidade e Sincretismos Curadoria de Rafael Schunk e Renato Araújo Em cartaz de 24 de outubro de 2026 a março de 2027 Fundação Maria Luisa e Oscar Americano - Av. Morumbi, 4077 - São Paulo Ingressos: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada). Entrada gratuita às terças-feiras. Funcionamento: Terça a domingo, das 10h às 17h30. Valet no local (R$ 30,00). Mais informações: https://www.fundacaooscaramericano.org.br/ Telefone: (11) 3742-0077 Meia-entrada: Estudantes, pessoas maiores de 60 anos e portadores de necessidades especiais (PNE). Entrada gratuita: Visitas agendadas de grupos provenientes de escolas públicas e de instituições sociais sem finalidades lucrativas que atuam com pessoas com deficiência e/ou em situação de vulnerabilidade social, assim como os professores(as), coordenadores(as), diretores(as), supervisores(as) e quadro de apoio que os acompanhe. Profissionais filiados ao ICOM – Conselho Internacional de Museus e à ABCA – Associação Brasileira de Críticos de Arte, mediante apresentação de carteirinha. A Fundação Maria Luisa e Oscar Americano é um museu-casa e parque cultural instalado na antiga residência do casal, hoje dedicada à preservação de um importante acervo da história e da arte brasileiras, com destaque para os períodos colonial e imperial, e à promoção da cultura e da educação por meio de exposições, concertos, cursos e outras atividades. O local abriga uma vasta coleção de obras de arte, mobiliário, documentos e objetos históricos e está inserido em um parque de 75 mil m², que constitui um importante espaço verde na cidade de São Paulo. A programação inclui ainda atividades educativas, caminhadas pelo parque, observação de aves, palestras e outras iniciativas, preservando a memória de Maria Luisa e Oscar Americano e mantendo vivo seu legado cultural. |

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