Grupo TAPA estreia no Teatro do SESI-SP com comédia do italiano Eduardo De Filippo

 


Com direção de Eduardo Tolentino de Araujo, “Filumena Marturano” é protagonizada por Sandra Corveloni e André Garolli. O elenco ainda conta com Walter Breda e Maria do Carmo Soares, que trazem grande parte da comicidade para a trama. Com entrada gratuita, o espetáculo marca a estreia do Grupo TAPA no Teatro do SESI-SP, no Centro Cultural FIESP, na Avenida Paulista

Com mais de quatro décadas de história, o Grupo TAPA já encenou obras de Luigi Pirandello e Nicolau Maquiavel. Em 2026, o grupo se encontra pela primeira vez com outro autor italiano: Eduardo De Filippo (1900–1984), com a estreia de Filumena Marturano. A comédia aborda temas como família, maternidade, reconhecimento e relações de poder. A montagem chega aos palcos a partir de 16 de outubro, sexta-feira, às 20h, no Teatro do SESI-SP, no Centro Cultural FIESP, dirigida por Eduardo Tolentino de Araujo e protagonizada por Sandra Corveloni e André Garolli. A temporada acontece sempre de quinta a sábado, às 20h, e aos domingos, às 19h, até 20 de dezembro. Os ingressos são gratuitos.

 

Escrita em 1946, Filumena Marturano (Sandra Corveloni) conta a história de uma ex-prostituta que finge estar morrendo para forçar seu parceiro de longa data, Domênico Soriano (André Garolli), a se casar com ela no leito de morte. Após a revelação da farsa, conflitos familiares e revelações sobre seus filhos testam os limites da dignidade e do afeto. O elenco também conta com Walter Breda (Alfredo), Maria do Carmo Soares (Rosália), Daniel Volpi (Nocella), Ivan Nobrega (Michaele), Felipe Souza (Ricardo), Ruiz Angellus (Umberto), Luísa Ferrari (Diana) e Mari Teixeira (Lucia).

 

Filumena Marturano fala da família e das contradições da moral, das relações de classe e da condição da mulher. É uma mulher do povo diante de uma burguesia que foi inoperante durante a guerra. Existe ali, simbolicamente, uma união entre essas duas partes de uma Itália destruída pelo conflito, que precisa se reconstruir. A trama não fala diretamente da guerra ou da política, mas tudo isso está presente de maneira simbólica. E, ao mesmo tempo, é uma comédia que tem uma comunicação com o público, porque se ri muito, mas também existe um teor sentimental com todos os ingredientes que uma família tem”, ressalta Eduardo Tolentino de Araujo.


O diretor traduziu o espetáculo em parceria com Maurizio De Simone, diretamente do napolitano, buscando preservar as particularidades do texto original e explorar seus sentidos e sonoridades. “Eduardo De Filippo é chamado de ‘Shakespeare napolitano’. Por incrível que pareça, ele é muito menos conhecido no Brasil do que deveria ser. Isso aconteceu, entre outras razões, porque os direitos não chegavam até o autor e por causa da ditadura militar. Filumena é o grande sucesso dele, o momento em que dá um salto na carreira. Ele já era um autor popular, mas, a partir dessa peça, ganha outra dimensão e passa a ser montado no mundo inteiro.”

A encenação parte de uma proposta naturalista e situa a ação em uma sala burguesa tradicional, tendo como eixo uma grande mesa, onde se concentram os principais conflitos da obra. A passagem entre os três atos é feita por meio de escolhas cromáticas e cênicas. O primeiro, ambientado à noite, utiliza preto, branco e cinza; o segundo se passa pela manhã, com cores claras e estampas florais; e o terceiro ocorre ao entardecer, com tons pastel. O mobiliário e os adereços também se transformam ao longo da montagem.

A proposta visual se estende aos figurinos, que variam não apenas nas cores, mas também nas texturas dos materiais e nos adereços utilizados em cena. A trilha sonora reúne antigas canções napolitanas, executadas a cappella pelos próprios atores em momentos pontuais da encenação.


Eduardo Tolentino de Araujo também relaciona a peça à trajetória pessoal de Eduardo De Filippo. “Filho ilegítimo, assim como Titina e Pepino, seus dois irmãos, Eduardo faz, por meio da peça, um acerto de contas com seu pai, o consagrado dramaturgo Eduardo Scarpetta, que nunca os filiou. Ele inverte o senso de que a arte imita a vida, mas a corrige e, com isso, resgata um protagonismo roubado da sua mãe por uma sociedade machista. Sua Filumena é uma leoa, que luta com unhas e dentes ou garras pela legitimidade dos filhos e, para isso, emprega todas as armas, nem sempre honestas. Afinal, se a sociedade não é justa, só resta combatê-la com o princípio homeopático de usar o veneno contra o próprio veneno.”

 

A obra também foi adaptada para o cinema por Vittorio De Sica em Matrimônio à Italiana (Matrimonio all'italiana, 1964) e protagonizada por Sophia Loren e Marcello Mastroianni. No teatro, a atriz Joan Plowright interpretou a personagem principal em montagens realizadas em Londres, em 1977, e na Broadway, em 1980. Judi Dench também viveu Filumena no West End de Londres, em temporada realizada entre 1998 e 1999. No Brasil, a montagem do Teatro dos Quatro teve Yara Amaral como protagonista. Após a morte da atriz no naufrágio do Bateau Mouche, na passagem de 1988 para 1989, Nathalia Timberg assumiu o papel e deu continuidade ao projeto.


A trajetória de Filumena Marturano chegou ao Vaticano. Em julho de 1947, o elenco da montagem original foi recebido em audiência privada pelo Papa Pio XII. Durante o encontro, o pontífice pediu que Titina De Filippo, intérprete original da protagonista, recitasse um dos monólogos da peça. A atriz apresentou a oração de Filumena à Madonna das Rosas.

A história da peça estabelece uma relação direta com São Paulo pela presença italiana na formação cultural e social da cidade. A ambientação napolitana da obra, com suas relações familiares, costumes e modos de vida, se conecta com uma metrópole que recebeu sucessivas levas de imigrantes italianos a partir do final do século 19, especialmente em bairros como a Bela Vista, onde essa herança permanece presente. A montagem amplia esse diálogo com a chegada do TAPA pela primeira vez ao Teatro do SESI-SP, no Centro Cultural FIESP, na Avenida Paulista, um dos principais espaços de arte e cultura da capital.

 

“Receber o Grupo TAPA pela primeira vez no Teatro do SESI-SP reforça a vocação do Centro Cultural FIESP como um local de encontro entre artistas, obras e públicos, contribuindo para a construção de uma programação cultural diversa e de excelência. A presença de uma companhia com a trajetória do Grupo TAPA em nossa programação reafirma o compromisso do SESI-SP com a difusão das artes cênicas e com a democratização do acesso à cultura. Por meio do Teatro do SESI-SP, buscamos oferecer à cidade de São Paulo experiências artísticas de qualidade, sempre com entrada gratuita, ampliando o acesso do público a diferentes linguagens, repertórios e nomes importantes da cena brasileira e internacional”, comenta Anna Helena Polistchuk, analista de Atividades Culturais do SESI-SP.


ENCONTRO DE GERAÇÕES

Em Filumena Marturano, Walter Breda e Maria do Carmo Soares são responsáveis por dar vida a dois seguidores fiéis dos protagonistas da história, defendendo-os em todas as circunstâncias, além de trazer boa parte da comicidade para a trama. Ela vive Rosália, sempre ao lado da personagem-título. Ele vive Alfredo, parceiro inseparável de Domênico Soriano. Os dois atores possuem carreiras prestigiadas nos palcos brasileiros.


Walter Breda soma mais de seis décadas de carreira no teatro e passou por montagens como O Homem de La Mancha, ao lado de Grande Otelo, Bibi Ferreira e Paulo Autran; Ópera do Malandro; Cyrano de Bergerac; Monsieur Molière; Nostradamus e O País dos Elefantes, apresentada no Festival de Avignon, na França. Também esteve no elenco de Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues, e O Fantástico Reparador de Feridas, de Brian Friel. A montagem de Filumena Marturano representa seu reencontro com a obra de Eduardo De Filippo: em 2000, Breda recebeu o Prêmio Shell de Teatro de Melhor Ator por sua atuação em A Arte da Comédia, do dramaturgo italiano. No Grupo TAPA, integrou ainda o elenco de O Ensaio, de Jean Anouilh.


Maria do Carmo Soares também construiu uma trajetória de décadas no teatro e está entre as fundadoras do Grupo de Teatro Mambembe. No Grupo TAPA, participou de Amargo Siciliano, de Luigi Pirandello, e A Mandrágora, de Nicolau Maquiavel. Sua trajetória inclui ainda montagens dirigidas por Gabriel Villela, como Fausto, Replay e Guerra Santa; por Roberto Lage, entre elas Bésame Mucho e Madame de Sade; e trabalhos com Carlos Alberto Soffredini, como Diletante, A Farsa de Inês Pereira e Venha Buscar-me Que Ainda Sou Teu.

 

Os atores Sandra Corveloni e André Garolli pertencem à mesma geração de artistas que tomou contato com o Grupo TAPA a partir dos anos 1990. Os dois participaram do período do Panorama do Teatro Brasileiro e, desde então, voltaram a se encontrar em diferentes peças como Moço em Estado de Sítio, de Oduvaldo Vianna Filho, e Ivanov, de Anton Tchekhov. Mais recentemente, estiveram à frente de Credores, de August Strindberg, um dos trabalhos de maior longevidade do repertório do grupo.

 

Sandra também atuou com Clara Carvalho em uma versão online de A Mais Forte, de August Strindberg, realizada em 2021, durante a pandemia, além de ter estado em cena em Rasto Atrás, de Jorge Andrade, e A Serpente, de Nelson Rodrigues. Como diretora, assinou As Viúvas, de Artur Azevedo, e, ao lado de Eduardo Tolentino, Amargo Siciliano, de Luigi Pirandello. Nos cinemas, recebeu o prêmio de Melhor Atriz no 61º Festival de Cannes, em 2008, por sua atuação no filme Linha de Passe, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas.


Garolli se aproximou do TAPA depois de assistir A Mandrágora, de Nicolau Maquiavel, e se interessou pela linguagem da companhia. A convite de Eduardo Tolentino, estreou no grupo em A Megera Domada, de William Shakespeare, substituindo um ator que havia deixado a montagem. Posteriormente, participou de Querô, de Plínio Marcos; O Noviço, de Martins Pena; A Casa de Orates, de Artur Azevedo; Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues; 12 Homens e uma Sentença, de Reginald Rose, entre outras produções.


Sandra Corveloni e André Garolli também voltam aos palcos do Teatro do SESI-SP. Eles integraram o elenco do espetáculo Tectônicas, com texto de Samir Yazbek e direção de Marcelo Lazzaratto, que estreou em 2021.

A relação de Garolli e Tolentino com Filumena Marturano começou a se desenhar há cerca de oito anos. Na época, os dois viajaram juntos à Itália e foram a Udine para assistir a uma montagem dirigida por Luca De Filippo, filho de Eduardo De Filippo. A experiência despertou o interesse em levar a peça para o repertório do TAPA, projeto que agora chega ao palco.


SINOPSE

Inspirada em uma notícia de jornal sobre uma mulher que simula estar em estado terminal para convencer o homem que ama a se casar com ela como seu último desejo, Eduardo De Filippo desenvolve a trama de sua peça mais popular, Filumena Marturano (1946). O pano se abre com a revelação do golpe da protagonista, e a história se desenrola, ao longo de uma hora e meia, entre surpresas e revelações sobre o passado dos personagens e suas consequências para o futuro. Depois de vinte e cinco anos de convivência extraoficial com Domênico, que a retirou de um bordel, Filumena guarda um segredo que vem à tona: ela teve três filhos e deseja o casamento para legitimar a paternidade. Mas há uma carta na manga: apenas um deles é filho de Domênico. Talvez sejam os três, mas esse é um trunfo que Filumena não entrega de bandeja. Entre a comédia e o drama sentimental, De Filippo resgata, por meio da ficção, o sobrenome que ele e seus dois irmãos, filhos ilegítimos, nunca tiveram. A arte corrige a vida, para deleite dos espectadores.


FICHA TÉCNICA

Autor: Eduardo De Filippo. Tradução: Eduardo Tolentino de Araujo e Maurizio De Simone. Direção: Eduardo Tolentino de Araujo. Elenco: Sandra Corveloni (Filumena), André Garolli (Domênico), Walter Breda (Alfredo), Maria do Carmo Soares (Rosália), Ivan Nobrega (Michaele), Felipe Souza (Ricardo), Ruiz Angellus (Umberto), Luísa Ferrari (Diana), Daniel Volpi (Nocella) e Mari Teixeira (Lucia). Assistente de direção: Brian Penido Ross. Cenário: Flávio Tolezani. Cenotécnico: Evas Carretero. Figurinos: Marianna Baffa. Desenho de luz: Wagner Pinto. Assistente de iluminação: Carina Tavares. Preparação de canto: Nando Barbosa. Fotos: Ronaldo Gutierrez. Projeto gráfico: Nando Medeiros/CANNAL Mídias Digitais. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Redes sociais: CANNAL Mídias Digitais. Clipagem: Lupa Digital. Acessibilidade: All Dub Estúdio. Registro em vídeo e direção de imagens: Ícarus Filmes. Diretor de palco: Evas Carretero. Contrarregra: Daniel Sousa. Técnico de luz: Claudio Gutierres. Camareiros: Ariane Sá e Jô Nascimento. Coordenador adm. financeiro: Ariell Cannal. Consultora jurídica: Ana Paula Manrique Amaral. Assistente de produção: Jeane Souza. Produção executiva: Regilson Feliciano. Coordenação de produção: Náshara Silveira. Direção de produção: Maurício Inafre. Idealização do projeto: Grupo TAPA. Licença de direitos autorais: Abramus – Associação Brasileira de Música e Artes.


SERVIÇO

Centro Cultural FIESP – Teatro do SESI São Paulo | Av. Paulista, 1.313, Bela Vista – São Paulo/SP Temporada: 16 de outubro a 20 de dezembro | quinta a sábado, 20h; domingo, 19h

Ingressos: grátis

Reservas: sesisp.org.br/eventos

Classificação: 12 anos

Duração: 90 minutos

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